Eu prometi que contaria minha história quando estivesse pronta para isso. Bom, eu estou pronta! Espero que compreenda que naquela época, eu ainda era uma criança: talvez uns cinco ou seis anos, não me lembro ao certo. O que eu sei, é que fiz tudo aquilo estava ao meu alcance. E assim como toda criança deveria fazer, eu obedeci as ordens da minha mãe, e graças a isso, eu sobrevivi para lhe contar nossa história. Sim, eu sei, minha vida mudou drasticamente naquele dia, e a saudade deles só aperta, cada dia mais, e mais... eu sinto tanto.
– Krystal Miller.
LIBERTY FALLS - UM DIA INCOMUM
UM DIA INCOMUM
Tudo parecia normal naquela manhã de 18 de fevereiro em Liberty Falls; com exceção do clima. Ao contrário do que previa a meteorologia, o dia amanheceu ensolarado. E, embora não fosse uma manhã quente como as do verão, o sol brilhava imponente sobre mais um dia de inverno.
A pequena Krystal estava animada com o tempo agradável e, para comemorar, decidiu vestir seu vestido azul-claro decorado com flores coloridas: seu preferido. Fora um presente de sua mãe, dado na noite de Natal. Para combinar com o visual, prendeu os cabelos com uma faixa azul e já se sentia pronta para ir à escola. Enquanto esperava a mãe terminar de se arrumar, Krystal brincava com sua mais nova boneca, inspirada na maior heroína de Liberty Falls: Aetherella.
Algum tempo depois, lá estavam as duas, caminhando pelas ruas da cidade rumo à escola. Passaram pela lojinha do posto de gasolina, onde compraram uma Soda Pop e um pacote de Gomas de Matar: os famosos chicletes azedinhos que “explodiam” na boca. Continuaram o trajeto pela margem do rio, onde encontraram várias outras crianças paradas em frente à Loja de Quadrinhos do Olly. Todas estavam boquiabertas diante da nova atração da loja: uma estátua em tamanho real da heroína Aetherella (que, na verdade, de heroína não tinha muita coisa...).
Krystal sorriu encantada, e sem perceber, já havia corrido até a porta da loja para ver a estátua mais de perto.
— Histórias em quadrinhos sobre mim? É melhor ser um bestseller! — falou a estátua da Aetherella, e todos ao redor riram.
— Tão linda... — pensou Krystal. E completou em voz baixa: — Quando eu crescer, quero ser forte igual a ela.
A mãe a puxou gentilmente pelo braço, e as duas retomaram o caminho até a escola. Tudo parecia bem: crianças corriam de um lado para o outro, pais acompanhavam seus filhos até os portões, e o vai-e-vem de funcionários das Torres Janus seguia normalmente. Ao chegarem à escola, mãe e filha se despediram, e Krystal seguiu para sua sala com os colegas da primeira série.
O dia transcorreu normalmente; até que algo incomum aconteceu. Pouco depois do recreio, por volta das três da tarde, o alarme de incêndio soou em toda a cidade, e a seguinte mensagem ecoou pelos megafones:
ATENÇÃO, TODOS OS RESIDENTES DE LIBERTY FALLS!
"Atenção, todos os residentes de Liberty Falls! Esta é uma mensagem urgente do Comitê de Gerenciamento de Crise de Liberty Falls, em cooperação com as autoridades do Projeto Janus. Devido as circunstâncias extraordinárias, é proibido sair de casa no momento. Os residentes devem ficar dentro das suas casas, todas as portas e janelas devem ser trancadas. Ninguém deve sair para rua sem o conhecimento e ordem de uma autoridade de emergência civil ou militar. Não interfiram com o trabalho sendo feito para o seu beneficio pelos membros do serviço de emergência. Sua segurança é a nossa maior prioridade. Obrigada pela cooperação."
Krystal não entendeu muito bem o que dizia a mensagem, mas percebeu que o movimento pelos corredores da escola era incomum. Um professor entrou na sala do primeiro ano e orientou que levassem as crianças para o parquinho, onde os responsáveis já aguardavam. Ainda sem entender o motivo de tanta euforia, Krystal parecia animada, imaginando que seus pais haviam preparado uma surpresa — quem sabe um passeio até a Pista de Boliche do Fuller. Ela adorava o Mr. Peeks e queria muito ganhar uma pelúcia do coelho azul, mascote do clube. Ao chegarem ao parquinho, Krystal, ainda com os pensamentos no boliche, não notou a expressão de pânico nos rostos dos pais. Antes que compreendesse o que estava acontecendo, foi agarrada pelo pulso e forçada a correr com a mãe.
Fora da escola, Krystal começou a perceber o caos: pessoas corriam desesperadas, algumas com os olhos brilhando em tom amarelado e gemendo de maneira estranha. Em um canto, duas dessas figuras estavam debruçadas sobre alguém no chão — parecia que o devoravam. O pai de Krystal abria caminho pela multidão com seu rifle de caça, apontando para dispersar quem atrapalhasse. Em meio à correria, Krystal perdia o pai de vista a cada esquina. A mãe a segurava com tanta força que seu pulso doía. A menina tentou pedir para irem mais devagar, mas a resposta foi firme:
— Corra, filha. Ou vamos ficar para trás!
Krystal tentou chamar pelo pai, mas ele já havia avançado pela travessa próxima à Loja de Quadrinhos. Foi então que a realidade a atingiu com força. O som do disparo de uma arma ecoou pelo estacionamento. Em seguida, um rosnado gutural. Três das criaturas estavam sobre seu pai, tentando arrancar-lhe a carne com unhas e dentes. Outro tiro. Um grito de dor.
O pai de Krystal não resistiria.
A mãe continuava correndo, puxando Krystal com mais força. Ao chegarem na travessa, viram o corpo do pai caído. Algo dentro de Krystal se quebrou. De repente, tudo parecia mais claro, mais alto, mais real.
MORTOS-VIVOS!
Os gritos, os tiros, os prédios em chamas. E os monstros. Como nos filmes de terror do pai — mortos-vivos!
Seguindo por instinto, a mãe de Krystal a arrastou até o hotel. Tentaram contornar o caminho para o clube de boliche, mas havia muitos monstros. Correram até o posto de gasolina, onde avistaram uma escada de incêndio. Os zumbis se aproximavam. A mãe parou bruscamente, ajoelhou-se diante da filha e disse:
— Corra o mais rápido que puder, minha menina. Estou logo atrás. Vá, agora! – Krystal correu, subindo as escadas. Ao chegar no topo, ouviu a mãe gritar para que não olhasse para trás. Mas ela olhou. Viu os monstros se chocando contra sua mãe como uma tempestade. Ela não gritou. Apenas olhou para a filha, com um olhar que dizia: eu te amo!
Krystal ficou paralisada. Só despertou quando ouviu novamente a mensagem do Projeto Janus nos megafones. Seu grito chamou a atenção dos zumbis, que começaram a subir a escada. Um deles caiu sobre os outros, impedindo os demais de avançar.
Desesperada, Krystal desceu por um cano até a margem do rio e correu de volta à Loja de Quadrinhos. Mas já era tarde. Um mar de criaturas invadia o local. Um brilho roxo explodiu dentro da loja — era a estátua de Aetherella, disparando raios laser pelos olhos contra os monstros.
Sem rumo, Krystal invadiu o restaurante Freedom Fried Chicken por uma janela e trancou-a por dentro. Sentou-se em um canto, abriu a mochila e tirou sua boneca da Aetherella.
— Por favor, me ajude... — pediu à boneca, antes de abraçar os joelhos e cair em prantos.
O dia que amanheceu iluminado parecia agora tão distante. O sonho de ser forte como sua heroína já não importava. Seu pai, sua mãe, Olly... todos estavam mortos. Tudo o que restava era a esperança de alguém aparecer para salvá-la.
Três dias depois, Krystal Miller foi encontrada com vida no restaurante Freedom Fried Chicken por um casal do moto-clube Steel Mountain Riders. Carl Hoover e uma motoqueira de identidade desconhecida a levaram ao chefe de segurança do Projeto Janus, John Blanchard. Após alguns dias sob custódia e um interrogatório conduzido por Blanchard, Krystal foi entregue aos cuidados dos tios no dia 23 de fevereiro, sendo levada para uma cidade segura.
O pesadelo em Liberty Falls havia mudado sua vida para sempre.
NOTAS DO AUTOR
ProfessorEMD:
"Quem conta um conto, aumenta um ponto."
O Conto: Liberty Falls - Um Dia Incomum nasceu a partir da história de Krystal Miller e de sua família, que vivenciaram o fatídico dia em que a Fenda Dimensional se abriu na cidade: precisamente às três da tarde, em 18 de fevereiro de 1991.
Essa história veio à tona muitos anos depois, durante uma conversa entre a agente Krystal Miller e o agente Sergei Ravenov, ocorrida durante a Operação Deadbolt em Zaravan, Urzikstan, já em 2021. Em meio a um cenário caótico, Miller questiona Ravenov sobre sua aparente tranquilidade diante do surgimento das Fendas Dimensionais e da presença de zumbis. Em resposta, Ravenov revela que aquela não era sua primeira experiência enfrentando uma horda de mortos-vivos. Esse momento de vulnerabilidade e empatia faz com que Krystal decida compartilhar com ele os eventos traumáticos vividos em Liberty Falls, em 1991. Ao ver em Ravenov um apoio, ela narra os acontecimentos que agora compõem este conto: em parte como desabafo, em parte como forma de carregar um pouco menos do peso emocional que ainda a acompanha.
É claro que, como todo bom contador de histórias, dei minha contribuição criativa. Afinal, "quem conta um conto, aumenta um ponto", certo? Mesmo assim, me esforcei ao máximo para manter intactos os trechos narrados por Krystal ao Ravenov. Digamos que apenas adicionei um toque de drama (aquele que tanto gosto), para tornar tudo ainda mais envolvente.
Outro ponto importante: a agente Krystal Miller foi, de fato, entregue à equipe de segurança do Projeto Janus por dois membros do moto-clube Steel Mountain Riders. Segundo registros encontrados por Ava Jansen após o fechamento da Fenda Dimensional em 2021, no Urzikstan, a pequena Krystal foi interrogada por John Blanchard em 23 de fevereiro de 2021; cinco dias após o incidente em Liberty Falls.
Ela relata ter passado três dias escondida dentro do restaurante Freedom Fried Chicken, o que, segundo ela, resultou em um trauma alimentar: até hoje, Krystal afirma odiar frango frito. No entanto, nem tudo se encaixa perfeitamente. De acordo com a narrativa da missão principal de Liberty Falls, nossa Equipe Alfa só chegou à cidade no dia 19 de fevereiro, um dia após o surto se espalhar. Nesse mesmo dia, encontramos um registro de áudio mencionando que Carl Hoover, um dos motoqueiros do Steel Mountain Riders, havia resgatado uma garotinha de dentro do Freedom Fried Chicken — o que contradiz o relato de Krystal, que afirma ter permanecido no local por três dias consecutivos. Contudo, durante a gameplay de Liberty Falls, é possível ouvir o choro de uma criança dentro do restaurante. Por isso, acredito que a Treyarch tenha inserido esse registro de áudio apenas como uma referência à agente Miller, e não como uma evidência literal de seu resgate no dia 19. Em minha interpretação, o áudio foi incluído para efeito dramático e não necessariamente gravado naquele momento da história. Afinal, no próprio registro, Carl comenta que a cidade está vazia e que não há mais ninguém para ser resgatado — o que indica que a Equipe Alfa provavelmente já havia passado por ali, como Miller sugeriu.
Enfim, espero que tenham curtido esta primeira edição dos Contos do Éter — uma nova saga que pretendo continuar trazendo por aqui.
Muito obrigado por ler, e até a próxima!
☽ ᛟ ᚨ ᚱ ᚾ ☾